K-pop conquista fãs baianos e se enraíza na terra do pagode
29/07/2019 16:48 em Mundo

A sala está escura para exibir os arquivos do bloco de notas projetados na parede. Fazem as vezes da tela do karaokê. Numa tarde de domingo, num bar no meio do shopping, um monte de adolescentes esgoelam-se cantando em coro as letras de músicas mostradas ali. Tem baladinhas de sofrência, tem rap, tem hits dançantes. As vozes não são lá essas coisas até que uma menina de cabelão, óculos e moletom preto, que aguardava pacientemente na fila, toma o microfone. O jeito tímido some quando ela entoa, como se vivesse disso, Naega jeil jal naga / Naega jeil jal naga. É o refrão de Eu sou a melhor, sucesso da banda 2NE1. As canções são todas em coreano, com uns poucos trechos em inglês. Poderíamos estar em Seul, mas estamos em Salvador. A terra do pagode sucumbiu ao K-pop.

No começo do mês, um concurso de dança no Teatro Sesc Casa do Comércio reuniu 35 grupos que fazem covers de bandas da música pop sul-coreana, ou K-pop, como o gênero ganhou o mundo.  A plateia ficou lotada para assistir às apresentações e aplaudir os três primeiros colocados.  No meio de julho, foi a vez de o São Jogue do Shopping Bela Vista abrigar mais um Karaokê K-pop, descrito aí em cima. E ontem, na Biblioteca Central dos Barris, aconteceu o XII Encontro Kpopper, organizado pelo Kpoppers Baianos Entretenimento, que pretendia reunir centenas de pessoas. 

A cidade já tem até uma loja para atender os fãs do gênero, devidamente abaianados como k-popeiros.  A Xks Kpop Shop funciona há quatro meses no 11º andar de um prédio da Avenida Sete.  Quem chega avista logo uma bandeira da Coreia do Sul, ao lado de um grande painel com os ídolos de lá e de cá. Durante a semana, eles até se viram com um vendedor só, mas aos sábados, quando fica difícil até andar por ali, são pelo menos quatro atendentes. 

Karaokê K-pop, no São Jogue Bar. Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

A  maioria das pessoas, digamos, 80%, vai até lá em busca de qualquer coisa da BTS, o fenômeno dentro do fenômeno. Formado por sete integrantes, o grupo foi o primeiro desde os Beatles a ter três álbuns no número 1 da revista Billboard, a bíblia da música, em menos de um ano. No final de maio, os fãs brasileiros passaram três meses acampados para assistir aos shows da banda em São Paulo.

Silmara Gaspar, 28, que “largou tudo” para abrir a loja e viver só de amor – no caso, a paixão pelo K-pop –, conta espantada que o produto mais vendido do BTS são os moletons. Sim, mesmo neste calor onipresente. Mas há também pôsteres, máscaras, camisetas, bichinhos de pelúcia, anéis. Um deles traz uma pedrinha brilhante e a inscrição 2013.06.12.  “É a data do debut deles”, Silmara explica. “É como se fosse uma aliança de casamento”. 

Seguidores

De Salvador, a estudante de odontologia Alexa Aira, 22, gerencia uma das maiores fanbases do BTS no Brasil, a BTS News Brasil, com quase 190 mil seguidores no Twitter.  No começo do perfil, em 2016, conta que passava 12 horas catando notícias do grupo em sites gringos e respondendo a notificações.  Hoje, conseguiu diminuir para oito. “No café da manhã, já atualizo, e aí vou fracionando ao longo do dia”. 

E estudante Alexa Aira comanda uma das maiores fanbases do BTS no Brasil. Foto: Adilton Venegeroles / Ag. A TARDE

Quando pequena, Alexa gostava de animes como Dragon Ball Z e Sailor Moon e diz que nunca parou de acompanhar o universo da cultura oriental na internet. Tomou “consciência” do que era o K-pop em 2007, até encontrar a total identificação no BTS. “São como um refúgio para mim. Se eu estou com um problema, com vontade de chorar, eu paro e escuto. Eles sempre têm uma palavra para dar. É impressionante”.  

Seu quarto virou uma espécie de santuário do grupo.  Tem todos os álbuns que já lançaram e reclama de não conseguir comprá-los no Brasil. Precisa sempre pagar o frete da importação. Por mês, ela acha que gasta uns R$ 200 com o BTS, contando o canal de vídeos exclusivos que assina. 

É claro que Alexa foi aos shows da banda em São Paulo, mas diz que não ficou acampada os três meses, “só dois dias”.  Juntando o que ganha no trabalho, pagou R$ 1.170 pelo primeiro show e R$ 710 pelo outro. Conseguiu ficar na área “vip dos vips”. Ela pega o celular para mostrar os stories daqueles momentos “perfeitos”. Ao rever as cenas, tremelica de emoção. “Tá vendo? Nessa hora ele olhou pra mim!”. 

Ele é V, o seu favorito entre os sete, nome artístico de Kim Tae-hyung. Para fazer com que olhasse para ela, Alexa ampliou a foto do cachorro de V e o colocou no centro da bandeira do Brasil, ali no lugar da ordem e do progresso.  Ele riu, ela achou que fosse desmaiar. Sua imagem segurando a bandeira viralizou e foi parar num dos maiores sites de notícias da Coreia. 

Alexa entende um pouco do que está escrito ali. Há um ano, ela estuda coreano. Pensa em morar no país depois que se formar.  “No começo, queria entender melhor as letras do BTS, o que eles queriam passar. Mas agora tenho planos de me especializar em estética, e a Coreia é muito forte nessa área”. 

Indústria

O K-pop cresceu ao largo das mídias tradicionais. Virou febre mundial por causa da internet e das redes sociais. Talvez por isso há quem possa estar agora pensando que nunca tinha ouvido falar desse negócio antes de ler essa reportagem. Isso, claro, se você tiver mais que 30 anos. Mas mesmo este ser humano um tanto abduzido há de lembrar de Psy e seu Gangnam style, que em 2012 cavalgaram por tudo que é canto, até pelo trio elétrico do Carnaval de Salvador. 

A Coreia passou a investir pesadamente na indústria cultural no final da década de 1990 e agora colhe os frutos. O K-pop rende quase US$ 5 bilhões anuais, de acordo com a Bloomberg (ou cerca de R$ 19 bilhões). Para facilitar o processo de exportação, as músicas têm trechos em inglês (ou japonês, ou espanhol), numa pegada meio ‘juntos e shallow now’.  

Num processo intenso de produção, os artistas chegam a trabalhar até 16 horas por dia e a lançar cinco álbuns por ano.  Eles também são desencorajados a exibir namoros em público (alguns são proibidos de namorar mesmo por um tempo), dando aos fãs a impressão de que serão para sempre deles. Esquisito, né? Vez e outra também aparecem denúncias de prostituição e abusos sexuais. 

Silmara Gaspar abriu a primeira loja para fãs de K-pop em Salvador, a Xks Kpop Shop. Foto: Rafael Martins / Ag. A TARDE

Quem assiste pela primeira vez a um MV (music video) de uma banda de K-pop, tem a impressão de já ter visto aquilo antes. São boys ou girl bands dançando com passinhos coreografados músicas grudentas, envoltos em cenários de tons berrantes. Nada de novo sob o sol, certo? Mas “diferente” é justamente a palavra usada por 10 entre 10 k-poppers para explicar seu amor ao gênero. 

Fã da EXO, Silmara diz que os grupos de K-pop sempre conseguem surpreender. “Há cada quatro, cinco meses, uma banda lança um álbum novo. E cada álbum desses é uma surpresa. Às vezes, vem com uma música que é puro rap, e outra vez é uma balada que te faz chorar. Prendem os fãs pelas novidades”.  Nem precisava ir tão longe. Muitas vezes, há vários ritmos numa mesma música. 

Não é difícil imaginar do que a estudante de dança Rayana Almeida, 21, mais gosta no K-pop. Sim, são as coreografias, para ela muito mais elaboradas que as dos artistas norte-americanos. Assim como muitos de seus idols, ela tem traços orientais e cabelo colorido. Da última vez que a vimos, estava azul e roxo. Rayana é uma das 11 integrantes do Chérie, grupo criado em 2016, que faz covers de bandas coreanas. São dez meninas e um menino.

Eles ensaiam todos os fins de semana, aos sábados e aos domingos – repare, não um ou outro, mas os dois dias –, na casa de uma delas ou em alguma praça, geralmente na Pituba ou no Imbuí. Sempre que tem algum concurso, ou são convidados para algum evento, eles se apresentam.  E, além disso, gravam vídeos para seu canal no YouTube, com direito a cenário, figurino e onipresentes carões.  Costumam filmar em dois dias e levam outras duas semanas para editar o material. Já têm 13 produções. Numa delas, estão num estacionamento no alto de um prédio, em outra, divando em frente ao Farol da Barra. 

Coletivos

A cena K-pop em Salvador não é propriamente nova, embora tenha tomado corpo nos últimos dois anos, embalada pelo BTS. Em meados dos anos 2000, o coletivo Eighteen reunia fãs da música pop coreana em encontros tímidos nos shoppings da cidade. Foram, aos poucos, encontrando um espacinho em eventos de cultura oriental, como o Anipólitan, até emanciparem-se. 

Junot Freire está à frente da KBE, que organiza encontros de k-poppers. Foto: Raphaël Müller / Ag. A TARDE

Em outubro de 2014, o Kpoppers Baianos Entretenimento (KBE) realizou o primeiro Encontro Kpopper, na praça Ana Lúcia Magalhães.  Junot Freire, 23, que faz mestrado em ciência da computação, lembra que apareceram umas 50 pessoas, e ele já achou aquilo o máximo. Hoje, os eventos que promove, como o que aconteceu ontem na Biblioteca Central dos Barris, chegam a reunir mais de 500.

Elas vão lá para ver apresentações de grupos covers, participar de aulinhas de coreano, brincar nas gincanas, cantar no karaokê e, especialmente, viver a delícia de estar entre iguais. A maioria do público é formada por adolescentes, mas há também jovens adultos e crianças. Outro dia, Junot, que preside a KBE, se espantou quando viu uma menina de 10 anos aparecer no encontro, acompanhada dos pais. Ele também conta que o K-pop se espalha pela cidade de forma democrática. “Atinge todas as classes sociais. Vai gente do Corredor da Vitória e do Bairro da Paz”. 

No final do ano, a KBE vai promover mais um concurso de dança, desta vez maior do que os que realizou em 2017 e 2018. Serão dois dias, para dar conta de todos os grupos que querem se inscrever. Junot estima que existam mais de 60 em Salvador. “Toda hora brota um novo”, ri.

A competição realizada agora no começo de julho foi promovida por uma outra organização, a K-pop Daebak Bahia (KDB), criada há sete meses. Carlos Sobrinho, 21, que estudava para ser piloto de avião e agora cursa publicidade, está à frente do coletivo. Ele também está aprendendo, por conta própria, mandarim e tailandês, depois de desistir do coreano. “ É muito difícil”. Seus amigos “de fora do meio”, como Carlos diz, costumam falar que os k-poppers são infantis, mas ele não liga. “É música. Não tem idade”. 

O concurso deu prêmios de R$ 1 mil, R$ 600 e R$ 400 para o primeiro, segundo e terceiro lugares. O designer de moda Gustavo Barros, 23, concorreu com dois grupos, o Mean Boys e o Paradise, e foi, respectivamente, campeão e vice.  Ele representou a Bahia num festival regional que aconteceu em Recife no fim de semana passado.  

Gustavo ainda dança num outro time e tem também uma banda cover de K-pop, a Orion. Para dar conta, ensaia três vezes na semana. “Sábado para mim não existe”. Mas diz que não se cansa, o corpo se acostumou ao ritmo. Já deu até aulas de K-pop numa escola de dança, a Studio A, na Pituba, que mantém a modalidade na sua grade regular (às terças, quintas e sábados, para quem ficou interessado). 

Por sua ligação com moda, Gustavo costuma ficar responsável pelos figurinos dos grupos. “Em cada roupa, a gente gasta uns R$ 60. E ainda tem que pagar as inscrições dos concursos, os custos para ir aos ensaios... É um hobby caro”. 

Num tempo em que se diz tanto que representatividade importa, em que, afinal, os jovens baianos se veem refletidos nos seus ídolos coreanos? Para o estudante de dança Tamir Silva, 24, essa é uma das perguntas mais difíceis.  Ele acompanha bandas de K-pop há dez anos e há quatro lidera o grupo de cover Kiddo, com oito integrantes, todos homens.  Ficaram em quarto lugar no concurso promovido pela KDB. “Não sei dizer, na verdade, em que os artistas nos representam. Até a questão LGBT ainda é um tabu na Coreia”.  Por aqui, posaram etéreos feito fadas numa sessão de fotos na praça dos Eucaliptos, no Caminho das Árvores, para um cover da música Windy Day, da banda de meninas Oh My Girl. Subverter, eis a ordem. 

Integrantes do Kiddo, que costumam ensaira aos fins de semana. Foto: Fernanda Galvão / Divulgação

Até os fãs mais fervorosos de K-pop em algum momento já se perguntaram se essa não é uma modinha passageira. Em uma década,  haverá um ser vivente nesta banda dos trópicos que estará cantando em coreano? Junot aposta que sim. “Quando as bandas percebem que o público já enjoou de algo, partem para uma coisa nova. Mais moderno, menos fofinho, ou o inverso”.  Por ora, eles se divertem, e isso basta. 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!