Filme sobre Eduardo Coutinho abre Olhar de Cinema
06/06/2019 16:23 em TV/Entretenimento

O pontapé inicial para a 8ª edição do Olhar de Cinema foi dado ontem à noite com a exibição do documentário “Banquete Coutinho”, de Josafá Veloso. Nada mais apropriado para um festival de cinema celebrar em sua abertura um dos maiores cineastas que o Brasil produziu; ou melhor, um cineasta que produziu uma obra em torno de uma das maiores riquezas do Brasil: sua gente.

Eduardo Coutinho, mesmo antes de morrer, já tinha seu lugar garantido como mestre absoluto da arte do diálogo. Criou uma carreira sólida no documentário e tornou-se um entrevistador de primeira grandeza, bruxo cheio de truques que faziam as pessoas diante de si se expor tão intimamente. Seus melhores e maiores filmes são aqueles em que o realizador confronta, em conversas francas, gente comum, extraindo deles histórias e percepções de mundo. Fazia isso com uma facilidade invejável, resultado de anos de experiência e prática.

“Banquete Coutinho” inverte os papéis e coloca o cineasta no lugar de entrevistado, numa espécie de bate-papo quase casual – as entrevistas parecem ter sido gravadas em sua própria casa ou escritório, em 2012, apenas dois anos antes dele falecer – com certo ar de intimismo e casualidade. É diferente do tom mais formal que Carlos Nader deu ao registrar o mesmo tipo de conversa com o cineasta no longa “Eduardo Coutinho, 7 de Outubro”, filmado em estúdio. O que poderia se reverter em frieza, neste último caso, ganha contornos mais sólidos por conta de uma qualidade que o próprio Coutinho deixou como lição: a habilidade do entrevistador em conduzir uma conversa.

É um prazer ouvir Coutinho falar de seus filmes, inspirações e métodos de realização cinematográfica, que é uma maneira de falar também sobre questões da vida e do comportamento humano – é como coletar velhas lições de um sábio. É uma pena, no entanto, que Josafá Veloso não consiga necessariamente dar liga aos muitos discursos e ideias que aparecem ali, fazendo uso do desgastado recurso de utilizar cenas de filmes marcantes do cineasta em meio às falas. No entanto, poucas delas servem para ilustrar propriamente o que está sendo dito, um emaranhado de muito boas reflexões, pouco articuladas entre si.

Veloso tem dificuldades também de defender suas próprias elucubrações sobre a obra coutiniana. Uma das mais presentes coloca em questão uma possível metanarrativa que atravessaria toda a obra de Coutinho – Veloso pergunta-se: será que o cineasta fez, durante todo esse tempo, o mesmo filme? Não seriam todos os personagens retratado em seus filmes um alter-ego do próprio Coutinho? São questões difíceis de responder, tanto quanto são complexas na sua própria formulação hipotética, e o filme carece muito de uma defesa ou uma tentativa mais sólida de colocá-las a prova, ou mesmo em fricção. Apenas filmar Coutinho falando sobre sua obra não chega perto do mergulho profundo que tais questionamentos exigem.

“Banquete Coutinho” demonstra respeito e consideração inconteste ao mestre, mas o filme parece mesmo muito encantado pela própria oportunidade de estar diante daquele homem, de conversar com ele e de lhe colocar indagações. Funciona mais como celebração do gênio do homem do que tentativa de investigação, que se quer profunda, mas não chega muito longe.

Presença baiana

Até a próxima quinta, 13, a 8ª edição do Olhar de Cinema apresenta uma programação variada e rica em filmes e discussões. Alguns filmes baianos serão exibidos no evento em sua extensa e rica programação.

Na mostra competitiva, que mistura longas e curtas brasileiros e internacionais, tem destaque o filme “Casa”, da realizadora baiana Letícia Simões. Trata-se de uma espécie de ensaio autobiográfico que investiga, entre outras coisas, a relação da diretora com a própria mãe.

Outro filme de destaque é “A Mulher da Luz Própria”, sobre a atriz, diretora e ativista baiana Helena Ignez, filme dirigido por sua filha, Sinai Sganzerla. O projeto parte das memórias da artista que reconta sua vida e trajetória, ela que manteve parcerias frutíeras com diretores como Glauber Rocha, Rogério Sganzerla, Julio Bressane, e chega até o momento atual em que ela investe com mais afinco na direção cinematográfica.

“Ilha” é uma produção baiana, dirigida por Glenda Nicácio e Ary Rosa
“Ilha” é uma produção baiana, dirigida por Glenda Nicácio e Ary Rosa

Dentro da mostra Olhares Brasil, dedicada a filmes nacionais que já passaram por outros eventos de cinema no país, destacam-se as produções baianas “Ilha”, longa-metragem dirigido por Glenda Nicácio e Ary Rosa, e o curta “Um Ensaio Sobre a Ausência”, de David Aynan. Ambos já foram exibidos em Salvador durante o Panorama Internacional Coisa de Cinema.

Já a mostra Outros Olhares se dedica a filmes inéditos no Brasil. Um deles é o curta “Tudo que é Apertado Rasga” de Fabio Rodrigues, resultado de conclusão de curso na graduação de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo (de onde também vieram Glenda, Ary e David). O filme investiga, a partir de material de arquivo, a trajetória de atrizes e atores negros e as ausências e os apagamentos sentidos dessas figuras na história do audiovisual brasileiro. 

A realizadora baiana Everlane Moraes também apresenta um curta na Mostra Outros Olhares; intitulado “Aurora”, o filme foi realizado em Cuba onde a cineasta estudou cinema.

Vale destacar também que o realizador e roteirista baiano Pedro Perrazo participa como consultor de roteiros no Curitiba_Lab, importante laboratório de roteiros que avalia e promove um mergulho analítico em projetos em estágio inicial de feitura.

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