Música em tudo: um perfil de Luciano Salvador Bahia
16/05/2019 16:45 em TV/Entretenimento

"Quien ama la música, ama la vida", diz a frase estampada em um quadrinho na sala do músico Luciano Salvador  Bahia, 51. Salvador é sobrenome materno, e Bahia, herança paterna. O souvenir chileno foi um presente dado pela irmã Ana Teresa, a responsável por despertar o gosto artístico do caçula ainda na infância. Se os dizeres estiverem corretos, Luciano tem a mais amada das vivências. Não à toa, o cantor, compositor, instrumentista e produtor está concorrendo à categoria Especial pelo Conjunto das Direções Musicais do Ano de 2018 na 26ª Edição do Prêmio Braskem de Teatro, cuja cerimônia em homenagem a Jorge Amado acontece nesta quarta-feira.

Dentre os 10 espetáculos, adultos e infantis, concorrentes ao prêmio principal, Luciano foi responsável pela trilha de cinco – os adultos As tentações de Padre Cícero e Teatro La Independencia e os infantis O Barão nas árvores, Gromelôs e garatujas e O mundo das minhas palavras, além dos dispersos nas demais categorias, Enfermaria nº 6 e Memórias do mar aberto. Além disso, é ele quem assina a direção musical da noite, assim como fez na edição passada.

O lugar de tensão atrás da mesa de som, onde estará no dia 15, porém, não é seu favorito. Nos 30 anos como produtor musical, ele sempre preferiu a tranquilidade das apresentações gravadas. “Adoro audiovisual, ficar na pós-produção. Recebo o material pronto, me tranco no estúdio e vou trabalhar”, diz. Se o dia for cheio de gravações dentro dos cerca de 4 m² do seu home studio, será um dia feliz.

Dos palcos onde canta, prefere os menores – Teatro Sesi e Sala do Coro, por exemplo. “Ali é onde o trabalho brilha mais”, afirma, com a experiência de quem começou a tocar na noite de Salvador aos 17 anos. De segunda a segunda, acompanhava cantoras e cantores amigos nos bares com seu violão, teclado e violino.

Repertório

A carreira solo como cantor/compositor teve início mais de dez anos depois, em 1999, quando fez seu primeiro show com músicas exclusivamente autorais. Influenciado pelo Tropicalismo e a Bossa Nova, prefere cantar as próprias criações, com exceção dos projetos em homenagem a terceiros. Por isso, explica, tem um repertório que não combina com as festas de rua soteropolitanas, pois “exige concentração do público”. Nunca compôs para o Carnaval, por exemplo, mas gosta da folia “enquanto acontecimento” e de desfrutá-la “de modo contemplativo”. Nas festas do dia 2 de fevereiro, em homenagem a Iemanjá, admira o Rio Vermelho povoado em azul e branco da janela do seu apartamento, com vista para o mar. Durante o dia, costuma caminhar na orla do bairro boêmio e, à noite, vai a bares, restaurantes e “nos acarajés”.  

Conselheiro

É no Rio Vermelho que fica o Espaço Cultural Casa da Mãe, onde Luciano se apresentou com o amigo J. Velloso – também cantor, compositor e produtor  –, que esteve à frente de projetos no local em 2004, 2011 e 2012. “Apesar de não gostar de tocar em barzinho, ele logo topou o projeto”, lembra Velloso, que classifica os shows como “farra e prazer”.

A parceria entre eles, que vem sendo construída desde o início dos anos 2000, se materializou em diversos projetos. Em 2016, trabalharam na trilha sonora da peça Maria Borralheira. No ano seguinte, lançaram o show Ele e eu, onde, no palco, proseavam sobre a história de cada música antes de cantá-la. O formato funcionou tão bem que, em novembro último, a dupla estreou o programa semanal Feita na Bahia, da Rádio Educadora, que consiste em um bate-papo sobre a produção musical do estado. Também em 2018, Luciano  assinou a produção musical do álbum Não sei se te contei.

Velloso classifica a conversa do amigo, dentro e fora da gravação, como “boa, alegre, inteligente e sem amargura”. Sendo ele um pessimista confesso da humanidade, vê nas palavras de Luciano um acalanto para dias ruins. O artista também é o conselheiro pessoal e profissional de Márcia Castro. “Está sempre atento às histórias das pessoas. Antes de tudo, ele tem muita sensibilidade e está sempre ativando isso”, conta a cantora. Ela conheceu Bahia por volta de 2003 no teatro e, dois anos depois, o convidou para produzir seu primeiro show autoral. Na voz de Márcia, a música Queda fez parte da trilha sonora da novela Ciranda de Pedra, da Rede Globo, e deu a Luciano o Troféu Caymmi de Melhor Compositor, em 2004.

No ano seguinte, ele ganhou o Prêmio Braskem de Cultura e Arte, cuja bonificação custeou boa parte da feitura do seu primeiro álbum, 1, que teve participação de Elza Soares. Seu segundo CD,  Abstraia, baby, só foi lançado em 2014 por meio do selo Dubas, com distribuição da Universal Music.

O hiato de oito anos entre as obras é consequência das atribuições diversas do artista. “Por estar tão imerso no trabalho para os outros, acabo não priorizando o meu”, diz.

Mas uma coisa leva à outra. Ele mesmo credita boa parte dos contatos que fez no Rio e em São Paulo à “efervescência do início da carreira de Márcia” durante a produção do primeiro álbum dela, Pecadinho. “A gravação não foi nada tensa, como geralmente é. Toda situação com ele era engraçada”, lembra a cantora, destacando o bom humor do amigo.

Sangue

A simpatia parece ser herança de família, assim como o gosto cultural. Nos almoços de domingo, não pode faltar cantoria. “É muito prazer o que a música nos causa. Trocamos um bom bate-papo por uma roda de música”, conta a irmã Ana Teresa, 60. A primogênita, Ana Cristina, 63, até arrisca umas notas, mas prefere a pintura como hobby.

Reza a lenda que a genética artística veio do avô materno português, Aquilino Salvador, sobre quem ouviram muitas histórias. “Ficaram esperando nascer um neto que gostasse de música assim como ele”, conta Luciano, que aos 5 anos já dava sinais de ser  o tal neto.

“A pessoa que cuidava dele era uma vitrola pequena, onde tocavam aqueles discos que tinham só uma música de cada lado. Minha mãe conta que conseguia fazer de tudo enquanto ele ficava quieto, ouvindo, com aquela cabeça virada de lado que ele tem até hoje”, lembra Ana Teresa.

Seu primeiro violão, que ganhou do pai aos 8 anos, foi pedido após muito observar o prazer de Teresa em treinar com o instrumento. Logo ultrapassou as habilidades da irmã e começou acompanhar as cantorias  das tias. Tendo dominado as cordas aos 10 anos, conheceu o teclado a partir de um órgão elétrico, “meio que de brinquedo”, que guarda até hoje.

Se foi Teresa a primeira a despertar fortemente a música no irmão, hoje é ele quem lhe ajuda a aprender piano, flauta, violão e acordeão.

“Muitas vezes, passo na casa dele e peço para me dar dicas. Ele também faz playbacks das canções que quero aprender a tocar na flauta e me manda”, conta. A produção do artista tem contribuído para o enriquecimento musical já produzido pelo  estado onde nasceu e cujo nome carrega na certidão. Como diz, carinhosamente, J. Velloso: “A Bahia merece Bahia”.

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