Há 40 anos, o Olodum transformou o Pelourinho e tornou-se um emblema da cultura baiana
08/04/2019 16:29 em Música

No dia 25 de abril de 1979, na casa nº 11 da Rua Santa Isabel, no Pelourinho, nascia uma pequena agremiação carnavalesca somando forças ao movimento de criação de blocos afros iniciado pelo Ilê Aiyê, em 1974, que, junto com o Alvorada, fundado em 1975, fazia contraponto a grandes blocos de trio, como Os Internacionais e Os Corujas, que dominavam o Carnaval.

Carlos Nascimento, Geraldo Miranda, José Carlos Nascimento, José Luís  Almeida, Francisco Almeida, Antônio Almeida e Edson Santos da Cruz foram os sete diretores eleitos com a responsabilidade de colocar o bloco na rua.

Os ensaios abertos nos fins de semana, improvisados em uma quadra de chão de barro nos fundos do Teatro Miguel Santana, foi a forma encontrada pelo grupo para chamar a atenção da comunidade, que se identificou com o projeto. Assim, na sexta-feira de Carnaval de 1980, foliões vestidos com adereços nas cores branco e vermelho desfilaram no novo bloco afro da cidade: o Olodum.  

Vocalista da banda desde a fundação, Lazinho lembra: “Dentro do grupo e da comunidade cada um sabia fazer uma coisa e foi ajudando. A fantasia, o carro de som, tudo foi feito por nós. Logo no primeiro ano, mesmo com pouca estrutura, chamamos  atenção. Um bloco do povo negro, de um bairro pobre e discriminado, brincando no Carnaval”. 

O Olodum conseguiu ir às ruas nos dois anos seguintes – o que não foi possível em 1983. De acordo com Lazinho, dificuldades financeiras e na organização não permitiram o desfile. Após o Carnaval, a diretoria se reuniu, avaliou a importância de reestruturar o grupo e convidar novos integrantes. Seria uma reviravolta.

Neguinho do Samba e João Jorge (atual presidente), ambos vindos do Ilê Ayê; Márcia Virgens, Cristina Rodrigues e outros ativistas ligados à luta contra o racismo aceitaram o convite e ingressaram no projeto. Na reconfiguração, o Olodum deixou de ser apenas um bloco de Carnaval para se transformar em uma organização não governamental (ONG), o Grupo Cultural Olodum. 

A afirmação identitária se expressou com a adoção das cores internacionais da diáspora africana – vermelho (o sangue), amarelo (o ouro da África), preto (o orgulho do povo negro) e o branco (a paz mundial). As mulheres foram incorporadas à diretoria, com Cristina Rodrigues eleita presidente. 

João Jorge, 62 anos, acredita que foi uma mudança radical: “Demos um viés cultural, social, político, ligado às pautas e lutas do movimento negro, com atividades socioculturais durante o ano inteiro”.

Projetos como  Rufar dos Tambores começaram a ser desenvolvidos no bairro com objetivo de aperfeiçoar crianças e adolescentes na arte musical. A iniciativa transformou as ruas estreitas do Pelourinho em salas de aula a céu aberto. Os alunos aprendiam a tocar sob a orientação do mestre Neguinho do Samba (1955-2009). Desse projeto vieram os três atuais maestros da banda-show do Olodum: Bartolomeu Nunes, Andréia Reis e Gilmário Marques.

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