Os olhares e afetos de fotógrafas baianas sobre a festa de Iemanjá
06/02/2019 15:57 em Bahia

Com a chegada do mês de  fevereiro, as saudações a Iemanjá, a Mãe das Águas, se dão em diversos lugares de Salvador. É a “festa no mar”, como canta Dorival Caymmi na música Dois de Fevereiro. Uma tradição cultural mobilizadora de  afetos de milhares de pessoas  que, anualmente, levam as suas oferendas à Rainha do Mar.

No Rio Vermelho, o movimento torna-se intenso já  na noite do dia 1º e segue até o final do dia 2, data da festa na Bahia. Nas ruas, flores, alfazema, imagens da divindade, música e gente. Há também as cerimônias dos terreiros e, no mesmo dia, celebrações em outros bairros da cidade, como na Gamboa de Baixo.

As experiências na festa de Iemanjá são variadas. Convidamos quatro fotógrafas: Isabel Gouvêa, Mariana David, Shirley Stolze e Juh Almeida, todas atuantes em Salvador, para escolherem entre as suas fotografias – feitas em diferentes anos e contextos – as que expressam de forma singular seus vínculos com Iemanjá.

Reserva de força

Juh Almeida fotografa os festejos de Iemanjá na Gamboa | Juh Almeida / Arquivo Pessoal
Juh Almeida fotografa os festejos de Iemanjá na Gamboa | Juh Almeida / Arquivo Pessoal

As primeiras fotografias de Juh Almeida foram  feitas na beira do mar. No caos da cidade – produto de todos os problemas urbanos associados à desigualdade – a tranquilidade das praias, o colo da Rainha, pode ser uma forma de fuga, mas também um louvável alento e, ao mesmo tempo, reserva de força. “Nunca tinha entendido direito essa conexão até ir à Festa de Iemanjá e sentir a energia que tomava as ruas e desembocava no mar”, diz a jovem fotógrafa

Numa soma, o percurso para o equilíbrio da vida, o aprendizado com as yabás (orixás femininas) integra essa  experiência, a dimensão feminina dessa conexão. Nas suas palavras, “Iemanjá é a essência do poder absoluto feminino”. Algo que pulsa ainda mais  fortemente quando  Juh se aproxima desse universo. “Nos ensina a ouvir, observar, guardar o necessário e só revelar na hora exata. Esse caminho é tão fotográfico... Me vejo de forma intuitiva seguindo esse caminho quando estou documentando em fotografia as outras existências”.

O resultado é o encantamento do olhar. Em 2017, já frequentadora do da Gamboa de Baixo – comendo a  moqueca de Dona Suzana, passeando de barco e molhando os pés na água – foi convidada por moradores para fotografar a festa Presente Ecológico Solar do Unhão. De lá para cá, passou a expressar em imagens os sentimentos que não consegue “fielmente traduzir em palavras” ao viver a festa.

Fé de filha

Filha de Iemanjá, a fotógrafa Shirley se emociona com a fé de tanta gente | Foto: Shirley Stolze / Arquivo Pessoal
Filha de Iemanjá, a fotógrafa Shirley se emociona com a fé de tanta gente | Foto: Shirley Stolze / Arquivo Pessoal

Fotógrafa há 31 anos, Shirley Stolze gosta de falar que foi “criada no mar”, entre Ondina e o Rio Vermelho. Chega na Casa de Iemanjá, conhece os pescadores e já identifica, no dia 2, quem frequenta regularmente a festa. “Quando comecei a fotografar, passei a ir para a festa. Sou muito ligada, porque sou de Iemanjá”.

De acordo com ela, a fé de tanta gente, no dia, é algo de emocionar – pessoas de diferentes bairros, classes sociais e  religiões que  juntam-se para reverenciar a Mãe das Águas. O seu olhar volta-se aos elementos religiosos, ao que acontece ali no entorno dos barcos, na praia, as danças e transes ao som dos atabaques do Candomblé e da Umbanda.

Admira propostas ecológicas, como os  presentes com frutas, e acompanha as iniciativas de  pescadores com a limpeza do mar. Afinal, o zelo pela casa importa. “Frutas e flores não poluem o mar. Quero ver o mar limpo, sou gari de minha praia”, diz. Ela não interfere no espontâneo, não monta as fotos e estimula o acaso. Gosta mesmo é do movimento: “Fotografo o que vejo em minha frente”.

A luz que encanta

Altar para Iemanjá no Terreiro Odé Mirim, no Engenho Velho da Federação, durante a cerimônia preparatória da festa | Foto: Isabel Gouvêa / Divulgação
Altar para Iemanjá no Terreiro Odé Mirim, no Engenho Velho da Federação, durante a cerimônia preparatória da festa | Foto: Isabel Gouvêa / Arquivo Pessoal

Nos anos 1970, a fotógrafa Isabel Gouvêa, nascida em São Paulo, veio para Salvador. Um  percurso de 80 horas de trem. Viu a primeira saída  do Ilê Ayê e teve contato com as festas populares. Essa aproximação acompanhou os seus vínculos fundamentais com a fotografia. “Acabei me mudando para cá”, conta. As transformações nos dias que precedem a festa de Iemanjá chamou a sua atenção: “As pessoas comprando flores, nervosas. Dar presentes numa sociedade em que as pessoas só querem receber... Aquilo foi me tocando muito”.

Tornou-se, a partir de então,  assídua  no Rio Vermelho. Um dia, a mãe Aice  de Oxóssi, que coordenou a  parte religiosa da festa por 14 anos e faleceu em 2017, convidou  Isabel para fotografar o ritual da oferenda no terreiro Ilê Axé Odé Mirim, na Federação – além do presente na  orla, o que faz desde a  década de 1980. Lamenta que o aspecto religioso “mais profundo” da festa venha perdendo protagonismo. “Acho que a coisa  glamourizada, num bairro boêmio, afetou. Mas tudo que foi acontecendo por ali afetou. A história da mudança do bairro é a história da mudança da festa”, afirma.

O laço com Iemanjá foi central em suas pesquisas. No mestrado em Artes Visuais na Universidade Federal da Bahia, fez a foto-instalação Encantamento. É assim o seu 2 de fevereiro: “No  dia 1º, subo para o terreiro, acompanho os rituais e sigo para  a alvorada. Volto para casa, descanso e retorno. E só vou quando a luz vai embora”.

Natureza absoluta

Fotografia de Mariana David, durante a performance Lavagem | Foto: Mariana David / Arquivo Pessoal
Fotografia de Mariana David, durante a performance Lavagem | Foto: Mariana David / Arquivo Pessoal

“É uma festa em que o mar assume a importância que ele tem”, diz a fotógrafa Mariana David ao tratar das suas múltiplas conexões com Iemanjá, com o sagrado, a força selvagem e com a natureza no contexto do dia 2 de fevereiro.

Há três anos, ela fotografa a Lavagem, mistura de performance, ritual, fé e construção de imagens, na praia da Paciência, na alvorada da festa de Iemanjá, no Rio Vermelho. O acontecimento que reúne dezenas de mulheres foi idealizado pelas artistas Raiça Bomfim e Olga Lamas.

Moradora do bairro, Mariana procura chegar cedo, na “energia fresca e pura da manhã”, quando encontra um espaço de silêncio entre si e o mar. E entre si e o mundo. “É o momento mais lindo, de ir e fazer as orações, bater palma, cantar e agradecer”. A dimensão do feminino permeia essa ligação, tanto com  a festa, quanto com a fotografia. Mariana faz muitos trabalhos com mulheres e, paralelamente, defende uma maior representatividade delas na fotografia.

“Uma festa dedicada a um orixá feminino tem uma importância diferente. A  energia do feminino está muito presente: de amorosidade, renovação, nutrição, que é a figura maternal, a representação da Grande Mãe. E a performance tem um caráter de cura muito forte”.

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