Casas coloridas de Sergipe, Bahia e Alagoas inspiram série fotográfica
13/03/2019 15:17 em TV/Entretenimento

Desde pequena, Melissa Warwick tinha gosto pela fotografia. Natural de Jaguarão, no Rio Grande do Sul, ainda criança mudou-se para Aracaju, em Sergipe. Já adulta, começou a reparar nas cores fortes das casas que se multiplicam pelas cidadezinhas do interior do Nordeste. Há dez anos, ela passou a registrá-las na série É Tudo Fachada, que reúne imagens de moradias de Sergipe, Alagoas e Bahia.  

Muitas vezes, surpreendeu-se com casas que eram supercoloridas por fora e quase sem vida por dentro. Em outras, acontecia o contrário. Vem daí o nome do projeto. Mas, de um jeito ou de outro, Melissa descobriu, e faz questão de mostrar, que o luxo mora mesmo é na simplicidade, como conta na entrevista: 

Como você começou a fotografar as casas coloridas do Nordeste?

Tem dez anos. Estava fazendo trabalhos no sertão, principalmente em Sergipe, que foi onde eu mais trabalhei. Lembro que as primeiras fotografias dessas fachadas foram em Poço Redondo, aqui no sertão sergipano. Sempre acontecia de eu ir por meio de algum projeto cultural. Eu trabalhei, por exemplo, em uma jornada com uma banda sergipana chamada Coutto Orquestra. Fotografei todo o percurso deles na região do Rio São Francisco. Daí, à medida que eu fazia esses trabalhos, eu parava em frente às fachadas que me chamavam atenção e fotografava. 

O que mais te impressionou ao longo dessa produção fotográfica? 

O que mais me impressiona é essa combinação da sutileza das casas misturada com as cores fortes. São os varais coloridos que não tem como você passar e não ver. Parece até que foram cenários montados. Tem uma, inclusive, que parece a bandeira do Brasil: a fachada é toda amarela e o varal na frente é só de calça e bermuda azul jeans. O interessante é que não foi um cinegrafista que montou, mas sim um morador que fez aquilo se tornar arte. É a rotina deles que, para gente, se torna arte. 

Você esteve em três estados, Sergipe, Alagoas e Bahia. Notou alguma diferença entre os lugares ou fachadas por onde passou?

Fiz duas fotos na Bahia para a série, quando estava passeando em Barra Grande e Vila do Santo Antônio. Tem muita coisa de Sergipe e em Alagoas vi um cuidado maior com o projeto arquitetônico. Dá para perceber que existe cuidado com as casas, os prédios antigos, especialmente com a cidade de Piranhas e o povoado Entremontes, que são cidades muito bem preservadas e, consequentemente, as fachadas também. Em Sergipe você já tem fachadas mais singelas, mais rústicas.

As fachadas se relacionavam de alguma forma com a personalidade dos moradores?

Aí entra o nome da série. "É Tudo Fachada" quer dizer que às vezes nem tudo é o que você imagina que seja. Você vê uma pessoa que está toda maquiada e produzida, mas ela é uma pessoa que está triste e não está bem, daí você fala: “ih, isso é tudo fachada”. Então, às vezes você via uma casa que era super colorida, cheia de coisas, e aí você entrava e não tinha tanta vida. Em outras situações, acontecia o contrário. Por isso eu pensei nesse nome. Nem sempre o que está fora corresponde com o que tem dentro.

E como foi sua interação com esses moradores? 

Estive com rezadeiras, pescadores, doceiras, donas de casa. No último trabalho que fiz no sertão, com a Coutto Orquestra, nós íamos atrás das rezadeiras e entrávamos nas casas delas. Enquanto os músicos conversavam, eu fotografava, com a permissão delas, algumas partes da casa. Eu ouvia relatos, mas não necessariamente eles tinham a ver com a relação delas com a casa. Existia ali uma personalidade forte da moradora com a casa em si, especialmente com as cores fortes dos cômodos, as fotos e os objetos dali.

As pessoas tendem a associar a elegância ao branco, como se chique fosse ser minimalista. De que forma você acredita que as moradias do interior nordestino contrastam com essa visão?

O que acho interessante é que nasci no Rio Grande do Sul e já viajei muito. Então, tenho essa visão tanto do Nordeste como também de alguém de fora. Tenho vários amigos que não são daqui e quando vêm ficam: “Nossa, eu tinha uma outra imagem daqui”. A imagem que é vendida do Nordeste pro Sudeste é um pouco distorcida. É uma realidade bonita do Nordeste que não é miserável, mas não é luxuoso. E depende também de como você entende o luxuoso. Para eles, a simplicidade é o luxo. Por isso, quando você vê de perto essas fachadas, o impacto que a gente tem é ao se perguntar: “O que é luxo na verdade?”.

Qual foi a maior dificuldade desse projeto?

Tem uma foto que é uma fachada rosa e tem até um número de telefone pintado na parede. Eu fiz essa foto em cima de uma caminhonete em movimento. Estava trabalhando em uma campanha política aqui em Sergipe e avistava várias fachadas maravilhosas que eu não podia descer para fotografar porque estava fazendo fotos dos candidatos. Então, algumas saíram borradas e outras saíram boas. Outro desafio foi que nem sempre eu conseguia me dedicar porque não era um projeto que eu priorizava. 

Você pretende publicar este material?

Sim, tenho pretensão de continuar o projeto em outros estados do Nordeste e continuar inscrevendo a série em editais e convocatórias de fotografia. Vou me aprofundar mais no tema e quando tiver com material suficiente, quero publicar um livro com as imagens mais simbólicas do projeto. 

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