Protagonismo tolo
07/11/2018 14:59 em Esporte

Quando conseguiu conter o assédio de alguns dos principais clubes do Brasil e segurar Zé Rafael para esta temporada, o Bahia viu a chance de ter uma referência em campo. Deu-lhe a camisa 10 e esperou uma liderança técnica. Porém recebeu um protagonismo tolo.

O meia-atacante não deixou de ser um atleta exemplar, com condição física invejável, boa leitura de jogo (principalmente no momento em que o time não tem a bola) e capacidade acima do comum de partir com a redonda colada aos pés para fazer a equipe se projetar ao campo de ataque sem ter que, necessariamente, trocar passes.

No entanto, a 'promoção' que Zé Rafael ganhou foi como um documento oficial do clube: passou a estar permitido a ele tomar decisões de caráter individual sempre que considerasse conveniente. E Zé gostou da atribuição, além da conta.

Virou cobrador de faltas mesmo sem ter um chute especial, o que também não o impediu de aparecer como um dos jogadores que mais finalizam no Brasileirão (é o sexto em conclusões no alvo, com 31, e o líder em chutes para fora, com 46). Suas arrancadas – perfeitamente adaptadas para lances de contra-ataque, por se caracterizarem pela explosão em linha reta e não exatamente por hábeis mudanças de direção – tornaram-se tão usuais que perderam importância. Zé aumentou o número de tentativas mesmo com a marcação adversária bem postada, e assim tornou-se o jogador que mais perde a bola na Série A (211 vezes) e o segundo que mais sofre faltas (89). Já entre os dribladores, não se destaca tanto: é o sexto, com 26, enquanto Everton (Grêmio) lidera no fundamento com 41 dribles completos.

Nas estatísticas que comprovam poder de decisão, caiu de rendimento em relação à temporada passada, já sem grande relevância. Saiu de três gols e cinco assistências no Brasileiro de 2017 para dois tentos e três passes decisivos nesta edição. Élber, jogador que nunca foi conhecido por decidir jogos, soma quatro gols e cinco assistências. Em outro número importante, o de passes para finalização, Zé é apenas o 36º do campeonato, com 28 – Nenê, do São Paulo, lidera com 54 (todos os números são do site Footstats).

Dito tudo isso, quero ressaltar que, com a jogada do gol que decretou o 1 a 0 do Bahia sobre a Chapecoense, no último domingo (confira no infográfico), Zé demonstrou tudo aquilo que poderia ser, mas ainda não é. Movimentação inteligente da ponta para dentro, dando opção de passe em zona de grande ameaça para o adversário, dribles por ocasião, e não por procura, seguidos de passe simples para um colega melhor posicionado para a finalização.

Jogada do gol que decretou o 1 a 0 do Bahia sobre a Chapecoense
Jogada do gol que decretou o 1 a 0 do Bahia sobre a Chapecoense

Aproximação dos atacantes

No lance, Zé Rafael e Élber executam um dos movimentos mais importantes do futebol atual: o de aproximação dos atacantes que jogam nos dois extremos. Quando eles, geralmente os melhores e mais incisivos atletas de cada equipe, não dialogam, o jogo se prende muito a iniciativas individuais. O coletivo aparece com brilho quando os melhores enxergam um ao outro, e podem tabelar, confundir a marcação. No gol sobre a Chape, a jogada começa mais pela esquerda, por onde Zé já busca afunilar para dar objetividade ao lance. Do outro lado, Élber sabe que precisa adentrar a área em diagonal para ser uma alternativa de decisão. Neste caso, tudo ocorreu com perfeição de detalhes. Não há como negar que é uma raridade.

A partir de 2019, provavelmente no Palmeiras ou em outro clube de maior destaque do que o Bahia, Zé Rafael não terá a tarefa de ser protagonista, o que pode fazer muito bem ao seu jogo.

A evolução deve vir com a percepção de que ele precisará tratar com maior carinho toda chance que tiver de atuar e de tocar na bola. As escolhas simples são quase sempre as mais adequadas. O que não significa que não se pode arriscar, seguindo corretamente a lei de regra e exceção.

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