Copa começa com o país-sede enfrentando a Arábia Saudita
14/06/2018 - 10h03 em Esporte

Para muita gente, a resposta à pergunta do título é: “Gelo, vodka e acidentes de carro filmados por câmeras internas”. Mas a Rússia, que recebe a Copa do Mundo a partir desta quinta-feira, 14, é bem mais do que isso – e quem garante são três russas que, pelos mais variados motivos, trocaram o país do Mundial por Salvador.

Olga Silva, de 32 anos, veio para a Bahia graças à paixão pela capoeira, esporte que praticava desde que morava na Rússia. Hoje casada com um brasileiro, a jurista acredita que a Copa vai eliminar alguns estereótipos.

“Vai ser a grande oportunidade de as pessoas conhecerem nosso país e saberem que não tem ursos nas ruas, bêbados no chão, e que não é um lugar perigoso. É a chance de mostrar a tecnologia que temos e a infraestrutura das cidades. E todos os turistas que chegarem vão melhorar a situação financeira lá, né?”, apostou.

Mas isso, segundo ela, só se aplica àqueles que poderão conhecer o país. “Para quem mora fora e não vai visitar, não vai mudar nada. Alguns estereótipos são para sempre. Acho que até o final da minha vida eu vou ouvir essas piadas sobre vodka, frio e não sei o que mais”, disse, bem-humorada.

Já Galya Chervyakova, 35, comentou que a Copa vai revelar um país com características muito mais variadas do que as batidas imagens de neve dão a entender.

“É uma chance de nos mostrar, porque há pessoas cuja única visão da Rússia é a dos hooligans, terrorismo, Putin como ditador... Eles vão ver beleza, que tem muita diversidade: poucos países têm calor e frio ao mesmo tempo, por exemplo. E acho que o povo russo será hospitaleiro. Somos conhecidos como fechados, mas se você conquistar as pessoas, elas te levam para casa, abrem as portas... Mesmo que não possam financeiramente, vão lhe dar tudo do bom e do melhor”, declarou.

A riquíssima cultura russa, que deu ao mundo Fiódor Dostoiévski e Liev Tolstói, na literatura, Piotr Tchaikovsky e Igor Stravinski, na música, e o conhecidíssimo Balé Bolshoi, vai estar mais à vista do mundo, segundo Chervyakova.

“Outro dia, me falaram: não tem nada de interessante na Rússia. Acredita? Que ignorância. Lá tem um teatro em cada esquina! Temos os balés... Cultura 24 horas. Você passa nas ruas e vê as pessoas paradas lendo”, contou a professora, que nasceu no Cazaquistão, mas se vê como russa. “Lá, a nacionalidade se dá não pela terra, mas pelo sangue. E meus pais são russos”, explicou.

Elena Stetsurina, 39, discorda de Chervyakova quanto à disponibilidade do povo de lá para receber os turistas. Mas não por uma questão de caráter. Segundo a especialista em comércio exterior, três fatores devem dificultar a integração de estrangeiros com a população local: a língua, a crise financeira do país e a falta de costume em receber visitantes.

“O povo não fala muito inglês. O alfabeto é diferente. O estrangeiro não entende nada. Alguém me falou: 'Você pode dar aula para preparar as pessoas para a Copa?' É impossível (risos). A língua russa é tão complicada que às vezes se muda o tempo da frase e o som das palavras fica totalmente diferente. Por isso, eu não sei como o estrangeiro vai aceitar. E o povo russo também, que está cansado... Não acho que a Copa seja uma prioridade para a população russa. O povo tem muitos problemas econômicos, com a queda do rublo [moeda local]”, falou.

Para Stetsurina, as dificuldades financeiras do país devem afastar do Mundial parte da população. “Acho que o povo não está tão concentrado em se mostrar acolhedor, porque a pessoa normalmente está preocupada com os próprios problemas, e a Copa não ajuda a resolver os problemas dela. O Brasil tem a cultura do Carnaval. A cada ano tem Carnaval, e o país para, a fim de receber bem o turista, mostrar o melhor do Brasil. A Rússia, não“.

Em uma coisa, as três russas concordam: no país da Copa, o futebol não tem a mesma força que no Brasil.

Hóquei no gelo

Mais conhecida pelo hóquei no gelo (no qual já ganhou, desde a União Soviética, oito ouros nas Olimpíadas de Inverno), a Rússia deve abraçar a equipe que estreia nesta quinta por causa do nacionalismo, como conta Olga.

“Acho que 99% do povo vai assistir pelo patriotismo”, disse. Elena corrobora. “Lá, o futebol tem o mesmo valor de outros esportes. O futebol é mais popular por causa da monetIzação, da promoção global, mas não tem lugar na cabeça da população como tem na cabeça dos brasileiros”, analisou a especialista em comércio exterior.

Rússia e Arábia Saudita entram em campo ao meio-dia (horário de Brasília), no estádio Luzhniki, em Moscou, em um duelo que já começa decisivo. Com Uruguai e Egito,  times do Grupo A  muito mais badalados, as duas equipes precisam garantir vitória para sonhar com uma vaga na 2ª  fase. 

Sonha na estreia

Sem vencer nenhum dos últimos sete amistosos que fez, a Rússia vai tentar, em casa, ampliar o melhor resultado que já teve em Copas. Se foi 18º colocada em 1994, chegar à próxima fase pode ser pelo menos um alento.

O técnico Stanislav Cherchesov afirmou, em entrevista coletiva, que o elenco vai se dedicar ao máximo para dar alegria à torcida. "Sabemos que representamos uma nação que se preparou para essa festa. E nós também nos preparamos muito para chegar aqui. É a hora de união e de entregar o nosso melhor dentro de campo", avaliou.

Já o treinador da Arábia Saudita, Juan Antonio Pizzi, declarou que a seleção não vai ficar na defesa. “Meu estilo é de aproveitar cada momento com a bola, cada situação, e me impor tomando a iniciativa, que se consegue por meio da posse de bola”, explicou.

“Nossa grande ambição neste difícil grupo é a Rússia. Só depois dessa partida é que vamos saber quais são as nossas verdadeiras metas", completou Pizzi, que nas Eliminatórias treinou o Chile, mas não conseguiu classificação.

Muita música

Pelo menos de acordo com a organização da festa de abertura da Copa, o evento será bem diferente do que o público está acostumado. Apresentações musicais darão o tom da celebração, que terá como principais atrações a soprano russa Aida Garifullina, de 30 anos, e o ídolo pop inglês Robbie Williams. 

São esperados o ex-atacante brasileiro Ronaldo e Casillas, capitão da Espanha campeã em 2010, para levar o troféu a campo junto com a modelo russa Natalia Vodianova.

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