Hugo Ribeiro: "Há tendência de ganho de peso no mundo todo"
14/05/2018 14:29 em TV/Entretenimento

A relação dos avanços tecnológicos com o sedentarismo e, por consequência, com o ganho de peso é um assunto que movimenta a discussão sobre os modos de vida na contemporaneidade. Recentemente foi realizada uma pesquisa pela organização Cancer Research UK, no Reino Unido, na qual se afirma que “sete em cada dez millennials terão sobrepeso na meia-idade”. Os millennials, também chamados de geração Y, são pessoas nascidas entre 1980 e 1990, caracterizados pelo domínio da virtualidade como entretenimento e forma de interação social. Conforme o estudo inglês, essas pessoas estão mais propícias a ter o  índice de massa corporal (IMC)  acima do ideal. O IMC, que é calculado com a divisão do peso da pessoa pela sua altura elevada ao quadrado, não deve passar de 25 kg/m² – caso contrário, a pessoa pode estar com sobrepeso ou, se a  medida for a partir de 30 kg/m², com obesidade. Mas a tendência a ter sobrepeso não é algo restrito à geração Y, conforme aponta o médico pediatra Hugo Ribeiro, especializado em gastroenterologia e nutrologia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Ele afirma que atitudes como não tomar café da manhã ou fazer essa refeição de forma inadequada podem contribuir para uma desregulação alimentar ao longo do dia. O médico não condena nenhum  alimento em particular e, embora revele que há  uma tendência histórica de os seres humanos ganharem mais peso, afirma que é possível pensar numa vida mais saudável para as próximas gerações.

Recentemente foi publicada uma pesquisa, realizada pela organização Cancer Research UK, no Reino Unido,  afirmando que sete em cada dez millennials terão sobrepeso na meia-idade. Isso pode acontecer mesmo?

Os ingleses têm um banco de dados de acompanhamento de longo tempo e têm observado essa mudança. Por mais que haja um discurso nessa geração de adequação, de busca de coisas naturais, alternativas, na prática não é isso que está acontecendo. Todas as circunstâncias históricas dessa geração, o tempo imenso voltado para a internet, redução brutal de atividades físicas,  tudo isso coloca a geração em uma vulnerabilidade nutricional muito grande.

O senhor acredita que, além do possível sedentarismo ocasionado pelo excesso de tempo em frente à tela, os millennials têm uma relação de pressa ao consumir a comida, geralmente  industrializada e altamente processada?

Esse é, na verdade, um componente que a gente consegue interferir um pouco, mas há vários aspectos que são independentes do comportamento deles.  Independentemente do que você coma hoje, você já tem uma programação de gerações anteriores. O peso na gestação interfere no peso do futuro bebê. Não só naquele bebê, mas nos filhos daquele bebê e nos netos daquele bebê. Não é uma visão pessimista de que não tem jeito a dar, é uma visão de que as pessoas nascem com essa vulnerabilidade maior. Nós todos somos fruto de uma geração que passou em algum momento por dificuldades de alimentação. Então, nós sobrevivemos muito mais a dificuldades do que ao excesso, tanto é que quando se coloca uma população toda com dificuldade de alimentação, como houve na época da Guerra Mundial, as pessoas perdem peso, mas ganham peso de novo em uma velocidade imensa, e faz com que as gerações futuras tenham dificuldades de controlar o peso. Esse é um aspecto que não tem nada a ver com o que a gente come. Há uma tendência secular, que não tem nada a ver com a modernização apenas, mas vem do século 16, em que as pessoas eram mais leves do que no século 18, 19, 20, de que sejamos mais pesados do que fomos no passado. Junto a essas modificações todas é mais fácil ter alimento hoje do que no século 16. Por mais que se tenha dificuldades financeiras, econômicas, o alimento de uma maneira geral, mesmo para o mais pobre, é muito mais disponível do que foi no passado. Todos esses elementos juntos fazem com que essa geração  esteja no centro do furacão. Há  essa tendência de ganho de peso no mundo todo. A complexidade que  o assunto tem  não se resolve simplesmente fazendo as pessoas praticarem mais atividade física e deixarem de comer isso ou aquilo. É um conjunto. Tomar café da manhã  interfere no ganho de peso, porque as pessoas que não tomam café da manhã têm um aumento na quantidade do que elas comem ao longo do dia. Se você botar mil jovens que tomam café da manhã e mil jovens que não tomam, os mil que não tomam têm mais sobrepeso do que os outros.

Por que isso acontece?

O comer na manhã regula o que você come durante o dia, é a saciedade matinal. Quem não toma café da manhã come mais calorias do que quem consumiu café da manhã. Se a gente ver, em tradições culturais anteriores, mesmo na nossa sociedade, no interior, as pessoas tendem a fazer um café da manhã muito mais substancial do que a gente. As pessoas que têm esse tipo de alimentação tendem a ter um controle de peso maior.

Quem pula uma refeição ou demora muito para comer acaba compensando na outra, às vezes com alimentação mais calórica…

É inato do ser humano querer comer coisas de alto teor calórico, gostar do doce não é uma coisa da propaganda, as pessoas gostam de doce porque isso é da nossa natureza, da mesma forma que a gente rejeita coisas amargas. Isso é típico dos animais como nós, onívoros, que comem de tudo. Só que os alimentos que são doces, com condições de açúcar muito simples, consumidos em horário inadequados,  sobem o açúcar no sangue de forma muito rápida e  também fazem cair muito rapidamente,  então dá fome, inquietação. É o que acontece com crianças que não tomam um café da manhã com carboidratos mais complexos. Por volta das 9 horas, 10 horas da manhã, elas estão agitadas e não se concentram, o que interfere no aprendizado. Há uma população de 50% a 60% de jovens que não toma café da manhã, sai de casa, pega qualquer coisa correndo e vai embora. A velocidade com que se come interfere na saciedade. Quanto mais rápido você come, mais lento é o processo de saciedade. Se você for comendo devagarzinho, sua fome vai passando, aí você não tem necessidade de comer um volume muito grande. Existe um tempo entre o que você come e a resposta do organismo, não é só o estômago cheio, há todo um processo que muda seu apetite, e você para de ter vontade de comer.  

O açúcar, então, não é  o vilão em relação às causas da sobrepeso e obesidade?

Não é necessariamente só o açúcar, nenhum alimento pode ser responsabilizado pelo processo. Mais importante na dieta não é tirar esse ou aquele alimento, você tem que comer de tudo, isso faz parte da nossa característica, nós precisamos da diversidade para a nutrição. Toda vez que a gente fecha muito, não come isso, não come aquilo, há chance de apresentar deficiência de nutrientes, a não ser que se usem suplementos. Mas quando você come de tudo, normalmente, você consegue atingir as suas necessidades, pois o grande problema não é comer de tudo e, sim, o excesso de alguns componentes. Normalmente, a gente usa esse chavão na literatura, que não há alimentos ruins, há dietas ruins, você pode ter uma dieta boa, tendo alguns desses ‘vilões’ no meio, e pode ter uma dieta péssima só com coisas, teoricamente, boas. Porque se você não come de tudo e come só um determinado grupo de alimento maravilhoso, não consegue atender a suas necessidades gerais.

A questão financeira pode influenciar no desenvolvimento do sobrepeso?

Influencia. Tanto que é uma preocupação grande com as opções de rótulo, sobre toda essa discussão de rótulo, para orientar as pessoas. O preço define muito, dificilmente você vai ver alguém no supermercado olhando o rótulo disso ou daquilo. No mundo real, o preço é algo que atrai as pessoas. Estou falando de produto industrializado, que tem um valor calórico muito alto e é a preferência. Eles não estão ali por acaso, estão ali porque se sabe que as pessoas, se forem induzidas, elas consomem. Se estiver perto do caixa, a tendência de as pessoas notarem é muito grande, então isso é um fator que pesa muito. A gente tem que encontrar um meio de informar a pessoa para que ela possa se instruir e construir sua dieta, não necessariamente naquela compra, mas que ela tenha disponibilidade de ler o rótulo. A interpretação de proibição apenas não ajuda, não orienta o que deve ser feito.

Há uma questão cultural também, já que quem tem mais dinheiro pode querer comprar também algo barato nutricionalmente.

Exatamente, é uma questão cultural. O problema de lidar com sobrepeso e obesidade é que a gente não vai resolver em quatro anos, cinco anos; vai levar uma geração se a gente começar agora e atuar naquilo que é o grande segredo: na criança. Trabalhar com a população infantil é interromper um ciclo, tudo começa na gestação e com a criança. Mil dias é nossa janela de oportunidade, entre a gravidez, os 9 meses, mais os 2 anos, período crítico, em que toda a nossa programação acontece. Mas trabalhar com os millennials também, porque serão mães. Elas não podem comer de maneira muito selecionada na gestação, porque a criança aprende os sabores dentro da barriga da mãe. Se a criança tem uma mãe  que não come nada, a chance de o filho não experimentar alimentos saudáveis e ser uma criança mais difícil de se aventurar nos diversos alimentos é muito grande. A grávida tem que fazer um conjunto de sacrifícios pela criança, porque é uma responsabilidade imensa, um poder de mudar a outra geração.

O senhor disse que a tendência da humanidade é ficar mais pesada, mas  ainda assim é possível mudar?

A atividade física do dia a dia  faz a diferença, mas é algo que a violência atrapalha um pouco, evita a pessoa saltar dois pontos antes de casa, ir andando. O ambiente da gente é obesogênico, vamos para o shopping e pegamos o  elevador e não a escada. É preciso entender que não ser gordo não é uma questão estética, é um problema de saúde, e atividade física não é só perder peso: melhora a função cardiovascular, melhora o metabolismo. Às vezes, fica o argumento de não fazer atividade física porque a pessoa se diz gordinha e feliz com o corpo. Mas não é só isso, tem outras funções da atividade física que são importantíssimas para aumentar a massa magra, controlar a glicemia. Já as academias,  sem querer estigmatizar, estão muito associadas à questão estética, e não como uma questão de saúde. Há um entendimento das pessoas gordinhas de que elas estão desistindo da estética, e não da saúde. Não estou dizendo que não é importante  ter autoestima,  mas não se trata  apenas de dar satisfação ao outro.

Então é difícil ter gordinhos saudáveis, digamos assim?

Quando só tem o  sobrepeso, sem estar associado a doenças como hipertensão, não é  necessariamente um problema, mas não pode continuar ganhando, porque pode vir a ter.

Além do sobrepeso, os millennials também podem sofrer  transtornos de  ansiedade que os impulsionem a comer muito?

É muito difícil separar os componentes, mas tudo isso contribui de forma geral,  faz parte de um universo da sociedade moderna. Um aspecto  que está associado a essa geração é a instabilidade no emprego; antes, a pessoa tinha um emprego e durava nele, então, existe ansiedade, angústia de vínculos.

Recentemente, foi publicado que o presidente Donald Trump  quer evitar advertências em rótulos de alimentos com excesso de sal, gordura e açúcar nos países vizinhos aos EUA. Essa política pode se refletir no Brasil?

Eu não concordo que tenha advertências, há modelos mais educativos,  que dizem as proporções e não o que é proibido. O modelo do semáforo, por exemplo, diz que a pessoa já  não precisa mais de alguns componentes, vai orientando de como seguir uma dieta. Você pode trazer essa informação de uma forma muito mais construtiva do que simplesmente aquele sinal preto de que tem muito sal. O grande problema é porque não diz o que tem que fazer e como é que a pessoa vai construir a dieta. A maioria das medidas governamentais tem uma tendência a trabalhar somente com campanhas de curto prazo, que só duram quatro anos no máximo, não concentram energia para médio e longo prazo. Acredito que o grande problema é entender que não é uma coisa simples. Além disso, infelizmente, as comidas naturais, orgânicas, boas, são caras. Existe uma indústria paralela que tira proveito da questão, pois esses alimentos não têm alta escala industrial. 

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