Com cantora evangélica, trio da Timbalada defende mudança e explica nome 'Séc. XXI'
10/08/2017 - 14h23 em Famosos

“Toda história precisa de um ponto parágrafo pra recomeçar. A Timbalada deu certo, não é à toa que são 25 anos de estrada”. Esta aspa é do cantor e compositor Buja Ferreira, que ao lado dos ex-Mukindalas, Paula Sanffer e Rafa Chagas, terá a missão de conduzir a nova fase da banda criada por Carlinhos Brown após momento delicado vivido durante o comando de Millane Hora e Denny. O trio, que foi anunciado no dia 9 julho, trouxe o lema “Século XXI” para encabeçar essa virada - mesmo após os primeiros 16 anos do período centenário – e estiveram na redação do Bahia Notícias para explicar essa proposta e contar como estão conduzindo os primeiros momentos. Para eles, não é possível dizer que Millane "não deu certo", porque "tudo na vida é mudança". Dentre os destaques, Paula garantiu que o fato de ser evangélica não será o empecilho para ultrapassar as dificuldades do conjunto que tem o Iorubá como uma das suas bases. “Respeito as adorações de todos, entro em qualquer ambiente e fico muito tranquila, representando aquilo que acredito. Tenho toda a benção da minha igreja e minha pastora consegue entender o que vivo. Não me importo mais com os comentários de quem não entende. Deus está comigo, independente de qualquer coisa. Qual o problema de cantar na Timbalada e ser evangélica?”, questionou. Confira a entrevista completa:

 

Como vocês estão se sentindo nesta fase pós-apresentação ao público?

Paula: Estamos muito felizes e ansiosos pelo que está por vir. Coração é só gratidão por esse convite que o Cacique nos fez. No dia da coletiva, sentimos a vibração do público na primeira música. Fomos abraçados imediatamente. Hoje, o que mais queremos é prolongar esse contato físico com a galera, sabe?

Rafa: Anestesiados de amor, recebendo todo o carinho das redes sociais. As críticas estão vindo, mas encaro como algo para melhorar. A Timbalada é um desafio que estamos decididos a enfrentar e defender. Não é só uma banda, é um movimento da Bahia para o mundo que precisa ser cada vez mais ouvido.  

Buja: Preparados, né? Desejo que, a cada dia, sigamos ensaiando e compondo coisas novas, além de continuar respeitando toda a história do grupo.

 

Qual era a sensação no momento de subir ao palco?

Paula : A energia estava muito forte. Era a primeira vez que cantávamos todos juntos para o público. Eu e Rafa já tínhamos uma intimidade, devido a Mukindala, mas ali era diferente, outra energia. Surgiu emoção, alegria, desespero de fazer tudo certinho. Não era só cantar, era interpretar, interagir com o público e fora que ficamos semanas esperando esse momento. Mas, graças a Deus, tivemos um resultado positivo.

Rafa: Foi tão novo, mas parecia que a gente já fazia parte daquela situação. Mágico. A gente transmitia energia pelo olhar. Foi louco.

Buja: A energia do tambor é diferente e estar com Brown ali foi uma das coisas mais incríveis.

 

Quando e como souberam que assumiriam a Timbalada? 

Rafa: Na verdade, eu e Paula estávamos na Mukindala e depois do Carnaval, demos uma paradinha, o que é normal das bandas daqui. Porém, estava já agendada uma reunião para reorganizar as coisas. Nesse dia, Brown virou e disse: "Gente, tenho uma proposta pra vocês". Olhei pra Paula e fiquei pensando o que seria e ele completou: “Timbalada. Vocês aceitam?”. Já demos um "sim" só com o olhar, mas sem entender nada. Depois, ele foi explicando que seria uma nova fase da banda e tal. Não sabíamos que Denny iria sair. Achávamos que iríamos nos juntar a ele na Timbalada. Ficamos: "Nossa, cantar lá e com Denny. Vai ser maravilhoso" (risos)

Buja: Tenho contato com os moradores antigos do Candeal, pois sou compositor e, por causa disso, o Carlinhos me conheceu. Um amigo levou uma música minha e ele ficou querendo saber quem era o cantor. O tempo passou e ele ficou com aquilo na cabeça e depois me ligou: "Sou o Carlinhos". E eu: "Que Carlinhos?". E ele: "Brown". Nem acreditei na hora (risos). Em seguida, disse que tinha uma banda para mim, mas que não poderia dizer o nome ainda. Perguntou se eu queria. Depois de uns cinco dias, ligou novamente e disse da Timbalada e explicou que iria me juntar a mais dois cantores. Nossa, passei mal, tive febre (risos). Foi tudo muito rápido.

Paula: O mais engraçado de tudo é que Rafa já conhecia o Buja. Quando cheguei na casa de Carlinhos, fiquei olhando aquele homem parado e Rafa ainda não estava lá. Fiquei preocupada, né? Liguei pra ele: "Rafinha, cadê você? Tem um cara aí que vai cantar com a gente".  Aí quando ele viu quem era foi só felicidade.

 

Brown costumava dizer que Mukindala é uma banda de transição. Vocês já entraram sabendo que existia a possibilidade de migrar para Timbalada?

Paula: Não, não. Acho que isso nem passava pela cabeça de Carlinhos, pois a Mukindala veio com muita força, trazendo o merengue, essa batida, que também lembra a Timbalada. Então, assim, entramos para criar uma coisa boa, mas sabíamos que era transição. Hoje, podemos estar na Timbalada, amanhã poderíamos estar no trabalho solo. Porém, o bom de tudo é que através da Mukindala tivemos a aprovação do Carlinhos e agora estamos aqui.

 

Inclusive, qual o papel de Brown na Timbalada musicalmente falando? Ele dita todos os passos? Ou vocês já possuem autonomia? 

Rafa: É uma troca muito grande. Ele se preocupa com a nossa opinião, pergunta se estamos à vontade com a nova fase, músicas e ideias. Não só com a gente, mas com a banda toda, sabe? É um conjunto.

Paula: Ele é muito presente e não se limita só em abrir as portas, sabe? Temos que agradecer a Deus sempre pela vida de Carlinhos. Ele é muito generoso.

 

A Timbalada vem de um momento delicado, no qual a Millane não foi aceita por parte dos fãs, o que culminou na sua saída e posterior anúncio de Denny também. Vocês ficaram receosos quanto à recepção e expectativa dos timbaleiros? 

Buja: Acho que tudo na vida é mudança. Não existe isso de “não deu certo”. Penso que são fases e toda história precisa de um ponto parágrafo pra recomeçar. Tudo que aconteceu na Timbalada deu certo, não é à toa que são 25 anos de estrada.

Rafa: Agora, falando por mim, não tive medo, mas existiu aquela necessidade de fazer o melhor. O público timbaleiro é muito exigente e havia essa cobrança. Ficava meio apreensivo, apesar de estar ciente do que queria fazer.

Paula: Houve uma preocupação sim da minha parte. Queria saber se os fãs abraçariam, quais críticas que viriam e aquela coisa toda, porém pensei o seguinte: "Temos na veia a musicalidade, cantamos com a alma e atingimos o coração das pessoas". Então, por mais que não gostem dos nossos traços físicos, acreditava que quando ouvissem a junção das três vozes, perceberiam que nas nossas veias corriam a Timbalada.

 

 

Parte dessa rejeição veio da falta de reconhecimento na Millane. Muitos dos fãs queriam ser vistos nela. Como é saber que outras pessoas buscam ser representadas por vocês agora? Passa a existir preocupação com a forma de emitir uma mensagem?

Paula: Passamos a ter mais cuidado, né? Refletir para saber a melhor a forma de como se comportar diante de tudo isso que a Timbalada passou neste momento de insatisfação. Estamos na fase de ser aprovados pelos fãs, que são presentes e exigentes (risos). A verdade é que nós não estamos agoniados para conquistar, queremos viver o dia a dia.

Buja: É incrível pensar como a Timbalada é mundial. No dia seguinte ao anúncio, recebi mensagens de todas as partes do Brasil, sabe? As pessoas felizes pela volta do tambor. Críticas são bem-vindas, pois a gente se cobra também.

Rafa: É o reflexo do comprometimento. Não é só no cantar, é o conjunto de como passar a mensagem para os fãs, família e o público de forma geral. A música traz a alma e o amor e a Timbalada faz parte disso. Buscaremos sempre levantar a mensagem do respeito ao próximo.

 

Falando em representação, ao longo de toda sua história a Timbalada vem levantando o discurso de valorização das religiões de matrizes africanas. Paula, você como evangélica, qual a fórmula para alinhar suas convicções com a mensagem da banda? 

É tranquilo. Levanto uma única bandeira que é a Trindade, formada pelo Pai, Filho e Espírito Santo. O cristianismo é sem fronteira e eu canto a arte, adorando aquilo que creio. Respeito muito a religião de Carlinhos, acho lindo a forma como ele se expressa e cultua. Consigo caminhar tranquilamente. Sei que hoje 99% das músicas da Timbalada tem linguagem Iorubá. No início, ainda na Mukindala foi complicado porque não estava acostumada. Hoje, não tenho problema. Respeito as adorações de todos, entro em qualquer ambiente e fico muito tranquila, representando aquilo que acredito. Tenho toda a benção da minha igreja e minha pastora consegue entender o que vivo. Não me importo mais com os comentários de quem não entende. Deus está comigo, independente de qualquer coisa. Qual o problema de cantar na Timbalada e ser evangélica? Carlinhos sempre me respeitou e nunca me obrigou a nada.

 

Qual a ideia do nome “Timbalada século XXI” em pleno 2017? O que será diferente das formações anteriores?

Buja: É isso! Estamos no século XXI. É uma nova fase que Brown quer mostrar. A gente está aqui pra seguir a história com tudo que já foi escrito, respeitando todos os artistas que já passaram. Não vamos perder a essência. "Sec. XXI" vem pra ser nossa cara.

Rafa: Um marco para nos apresentar a essa nova geração, sem perder a galera que já nos acompanha há anos. Esse povo novo precisa ouvir música boa e a Timbalada faz parte desse grupo que faz canções de qualidade.

 

Além de vocês, Brown lançou a Eletrotimba e a Bateria de Rua. Acreditam que essas outras iniciativas contribuem ou dificultam a absorção dessa nova fase da banda ao público? 

Rafa: Contribuem porque a Timbalada é versátil. Cabe de tudo. Por que não ter música eletrônica na Bahia? Brown vê sempre além, sabe?

Buja: A Eletrotimba surge para esse momento da música eletrônica. Então, agora teremos esse representante aqui conosco.  

 

Por fim, o que significa para vocês estarem na Timbalada?

Rafa: É seguir um fundamento, continuar uma história que está sendo escrito há 25 anos. A Timbalada passou por várias fases e a nossa chegou.

Paula: É uma realização; degrau muito lindo. Tenho respeito pela Timbalada ser uma religião. É uma conquista.

Buja: É uma conquista também. Tenho 15 anos de estrada, já toquei em barzinho, pagode e o que achei mais bonito é poder levar o nome do meu bairro, Tancredo Neves, para além das páginas policiais. A Timbalada está me fazendo ser visto como exemplo e isso traz muita felicidade.

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